Liverpool, entre comboios

Liverpool, entre comboios

Liverpool não fazia parte do meu plano.

Era apenas uma paragem intermédia na viagem de comboio rumo a Edimburgo. Duas horas entre chegadas e partidas — tempo suficiente para sair da estação, caminhar sem destino definido e tentar, à minha maneira, perceber um pouco da cidade antes de seguir viagem para norte.

Quando penso em Liverpool, custa-me escapar aos Beatles. A cidade aprendeu há muito a viver com esse legado, e o Cavern Quarter continua a ser o epicentro de uma memória coletiva que atrai visitantes de todo o mundo. Comigo não foi diferente. Com pouco tempo disponível, deixei-me levar naturalmente para aquelas ruas estreitas, onde cada esquina parece guardar uma canção, uma fotografia ou uma história ligada à banda.

Infelizmente, o relógio não me deixou entrar no Cavern Club. Fiquei pela entrada, pelas fachadas, pelos letreiros iluminados, pelo movimento constante de quem chegava para conhecer aquele lugar quase mítico da música popular. É frustrante, mas às vezes é assim que as viagens funcionam: não nos dão o tempo que gostaríamos, e acabamos por conhecer os lugares apenas pela superfície. Talvez seja precisamente essa limitação que nos obriga a olhar com mais atenção — a compensar o tempo que falta com a atenção que sobra.

Enquanto caminhava, dei por mim menos interessado nas referências óbvias e mais nas pessoas que passavam por elas. Turistas a fotografar estátuas, visitantes à procura de ângulos familiares, transeuntes a atravessar ruas carregadas de história sem lhes prestar grande atenção. Foi aí que percebi: a cidade acontecia entre os monumentos, não neles.

Algumas das fotografias desta pequena série refletem exatamente essa sensação. Há imagens em que Liverpool surge como cenário de uma narrativa maior, marcada por décadas de cultura popular, e outras em que a cidade se revela através da sua arquitetura, das suas linhas urbanas, da escala dos seus edifícios. O contraste entre o histórico e o contemporâneo foi-se impondo naturalmente ao longo desta curta caminhada — quase sem eu procurar.

Fiz estas fotografias com Portra 400 e com a fuji xpro3. Gosto de pensar que foi o filme que suavizou a luz irregular daquela tarde e trouxe aquela tonalidade quente que, para mim, combina particularmente bem com os tijolos vermelhos, as fachadas envelhecidas e a atmosfera do centro da cidade. Há algo no Portra que perdoa a pressa — e eu estava, sem dúvida, com pressa.

Duas horas não chegam para conhecer Liverpool.

Mas chegam para recolher algumas impressões, fazer algumas fotografias e, sobretudo, para ficar com vontade de voltar. Há cidades que merecem dias inteiros. Esta ficou registada apenas num intervalo entre comboios.

E, por vezes, é precisamente nesses intervalos que nascem algumas das imagens de que mais gosto de uma viagem.